Por ser quem eu sou.

Você, de repente, não estranha de ser você?

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... cheiro de torta de maça com canela.

domingo, 14 de fevereiro de 2010



Lugar lotado, segunda-feira, filas imensas, um calor que escorre pela minha testa.
"Ótima maneira de começar uma entrevista" pensei.

Mais de 2 horas dentro do ônibus, perdi minha chave e não aguento mais ficar de pé.
Mas não demora muito para uma mulher franzina, de pele enrrugada, olhos fundos (e tristes) de vestido azul se levantar,
analiso comigo mesmo " O que uma mulher desse jeito vai querer trabalhar com isso?"
Então me lembro da taxa de desemprego e a resposta me aparece sem muito esforço.


Mas isso não importava, eu queria mesmo era me sentar ao lado da janela e rezar para que uma brisa pasasse ao meu lado antes que eu desmaisse de tanto calor (ou nervoso, sei lá).
Corri ao lugar da gorda como quem corre para pegar o último pedaço de bolo em festa de aniversário de primo pentelho.

A sala inteira observa a minha corrida. " Ele podia ter tropeçado e quebrado o pé", é o que a menina do meu lado disse baixinho quando me sentei, exausto. Nem ligo.
E não liguei para mais nada, porque você..




porque você entrou.


Tô sentindo seu cheiro enquanto você passa pela sala.
Cheiro doce com gosto de torta de maça com canela.

Você me cumprimenta com um sorriso, mas não tempo o suficiente para eu conseguir retribuir.
Não consigo ler a cor dos seus olhos redondos e a tua boca em cor de caqui.
Só posso observar seus cabelos escorrendo pela sua cintura, que mesmo apesar do calor infernal, podiam se mover ao som do vento (mínimo, é claro) que dançava pela sala.
Seus cabelos cacheados tão embalando meus sonhos de plebeu.

Pegou uma ficha e apoiou as costas numa parede.
Atrevo-me a levantar, mas minhas pernas não me obedecem. Tiro um livro da mochila e folheio algumas páginas e tento pousar meus olhos em algumas palavras para tomar coragem de te enviar um sorriso.
Então levanto a cabeça. "PARA ONDE VOCÊ FOI?!" Queria gritar, implorar para que ficasse, para que tomasse um café comigo e me falasse sobre seus sonhos, sua vida, sentir seu cheiro, quando a vi deixando a sala.
Mas a minha vez chegou e eu me pergunto se vale a pena desistir disso.

Então me lembro da taxa de desemprego e a resposta me aparece sem muito esforço.
Levanto-me e esbarro naquela mesma mulher de quando cheguei.

Cheiro de torta estragada.


4 comentários:

  1. Marcelo Mayer disse...

    é... realmente, vc precisa conhecer a rua augusta. sair desta vida de cambui, barão geraldo ou castelo. rs

    obrigado pela visita na tia augusta

    14 de fevereiro de 2010 14:43  

  2. Élide Elen disse...

    Gostei muito da forma com que você contou algo que parecia tão simples..
    Obrigada pela visita!
    Beijos!

    19 de fevereiro de 2010 22:22  

  3. Sâmia Moraes disse...

    quanto tempo não apareço por aqui, tá lindo o blog, e o texto adorei! haha , :*

    31 de março de 2010 00:45  

  4. maayara disse...

    amei o texto, as vezes a gente faz isso, por um segundo de distração perdemos algo (ou pessoa) de vista.
    beijos

    10 de abril de 2010 19:04  

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